Consumo de cigarros volta a subir nas grandes cidades brasileiras após quase duas décadas de queda
Pesquisa do Ministério da Saúde revela aumento de 25% na taxa de fumantes em apenas um ano, ligado à popularização dos vapes entre jovens
Depois de uma trajetória de queda consistente desde 2006, a proporção de adultos que fumam nas capitais brasileiras registrou alta entre 2023 e 2024. Especialistas apontam a nicotina como substância responsável pelo vício e riscos à saúde, enquanto os dispositivos eletrônicos de fumo ganham espaço entre a população jovem.
Durante quase duas décadas, o Brasil viu o consumo de cigarros regredir de maneira substancial, graças a políticas públicas rigorosas no combate ao tabagismo. Segundo dados oficiais, a parcela da população adulta fumante nas capitais diminuiu de 15,7% em 2006 para 9,3% em 2023. Contudo, algo alarmante chamou a atenção dos especialistas: de 2023 para 2024, a taxa subiu para 11,6%, um crescimento de cerca de 25% em apenas um ano, conforme apontam os últimos números do Vigitel, sistema de monitoramento do Ministério da Saúde.
O aumento da prevalência do hábito de fumar coincide com a disseminação dos vapes — dispositivos eletrônicos inaladores que liberam nicotina — principalmente entre os jovens. Segundo o levantamento do Vigitel, aproximadamente 15,5% dos brasileiros, o equivalente a 26,8 milhões de pessoas, fazem uso de algum produto que contém nicotina, entre fumantes de cigarro tradicional e usuários de dispositivos eletrônicos. Do total, 3,7% usam exclusivamente dispositivos eletrônicos e 1,9% fazem uso combinado desses aparelhos com os cigarros convencionais.
Para compreender os efeitos dessa substância, o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, fundador da Anvisa e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, ressalta que a nicotina é a principal responsável pelo vício: "Ela proporciona prazer ao fumante, o que torna o vício mais difícil de combater." No entanto, ele alerta sobre o lado sombrio da droga, que a indústria do tabaco por décadas negou. A nicotina, sendo vasoativa, altera o funcionamento do sistema cardiovascular e aumenta o risco de problemas sérios como infarto e acidente vascular cerebral, podendo causar danos ao coração e ao cérebro.
O cenário atual levanta dúvidas importantes sobre a eficácia das políticas públicas e o papel dos novos produtos de consumo de nicotina. A curva de queda do consumo, que parecia estabilizada, pode estar sofrendo uma reversão preocupante, sobretudo com a entrada dos jovens no mercado dos vapes. Até o momento, esta alta na prevalência é baseada exclusivamente nos dados do Jornal da USP, e outras fontes oficiais ou institucionais ainda não se pronunciaram para confirmar ou contestar os números.
O consumo da nicotina continua sendo um desafio para a saúde pública no Brasil, dada sua invisibilidade – o "assassino silencioso" –, e a complexidade do vício associado ao prazer imediato que proporciona, além dos impactos deletérios para órgãos vitais. A retomada do crescimento dessa parcela da população fumante ressalta a necessidade de novas estratégias de prevenção e combate, que contemplem tanto os cigarros tradicionais quanto os produtos eletrônicos.
O que sabemos?
- Entre 2006 e 2023, a taxa de fumantes adultos nas capitais brasileiras caiu de 15,7% para 9,3%.
- De 2023 para 2024, houve aumento para 11,6%, um crescimento de cerca de 25%.
- Cerca de 15,5% dos brasileiros usam produtos com nicotina, incluindo 3,7% que usam apenas dispositivos eletrônicos.
- Nicodina é vasoativa e representa riscos sérios à saúde cardiovascular, segundo especialista da USP.
Fontes
- Jornal da USP fonte oficial





