Brasil

Barreiras comerciais expõem desafios da carne brasileira e perspectivas do trigo no cerrado

Informações checadas ?

Impostos chineses e restrições europeias impactam carne bovina, enquanto Embrapa aposta em trigo transgênico para aumentar produção no cerrado

Produção de carne bovina e plantação de trigo no cerrado
Imagem: Folha de S.Paulo

Após a China esgotar sua cota de importação de carne brasileira isenta de taxas extras, entraram em vigor barreiras europeias que reduzem exportações e abalam a imagem do produto nacional. Paralelamente, o cerrado avança na produção de trigo com variedades transgênicas após quatro décadas de pesquisa, buscando ampliar área e produtividade.

A carne bovina brasileira enfrenta um momento delicado em seus principais mercados internacionais, com consequências econômicas e simbólicas para o setor. Segundo o jornalista Mauro Zafalon, que acompanha o tema, a cota chinesa de importação de carne do Brasil sem o imposto extra de 55% já está preenchida, o que fez a China aplicar a onerosa taxa — além dos 12% de tarifa padrão. Ainda esta semana, entraram em vigor barreiras de países europeus para a proteína animal brasileira, que, embora impactem pouco o volume total exportado, comprometem sensivelmente a imagem da carne nacional no exterior.

A redução nas vendas à China ocorre não por questões sanitárias, mas por uma estratégia do país asiático de proteger seus pecuaristas internos, esclarece Zafalon. Ele destaca que essa fase de restrição à entrada de carne brasileira pode ser temporária, já que em janeiro a China retoma as importações sem limitar o volume, que poderá chegar a até 1,128 milhão de toneladas. Para que isso aconteça, as encomendas deverão ter início já nos próximos meses, mantendo o mercado brasileiro aquecido e a expectativa positiva para os próximos ciclos.

Na União Europeia, a situação é diferente: o volume perdido com as barreiras costuma ser pequeno frente ao total exportado, mas o valor pago pelo produto brasileiro por lá é geralmente superior ao de outros mercados. Além disso, o maior impacto reside no desgaste da imagem da carne nacional, o que pode afetar contratos futuros e a confiança dos consumidores europeus. Zafalon ressalta que o Brasil precisa estar atento a essas questões para preservar suas oportunidades comerciais no exterior.

Enquanto o mercado da carne passa por essas turbulências, o cerrado brasileiro se destaca na agricultura com avanços importantes. O pesquisador Julio Cesar Albrecht, da Embrapa Cerrados, afirma que a região tem produzido trigo de qualidade industrial superior, com boa produtividade, resultado de 40 anos de pesquisa e seleção. No ano de 2022, o cerrado alcançou um recorde mundial de produção, chegando a 9 toneladas por hectare em apenas 119 dias, um ciclo muito mais curto do que os 300 dias normalmente necessários na Nova Zelândia, que atinge 14 toneladas por hectare.

Publicidade

Apesar dos bons resultados, a área cultivada no cerrado é de cerca de 400 mil hectares, ainda modesta frente ao potencial da região. O crescimento é limitado, segundo Albrecht, pela concorrência do trigo argentino. Curiosamente, para abastecer a indústria nacional, o Brasil acaba importando trigo da Argentina. Além disso, a oferta local sofre com a baixa quantidade de moinhos próximos à área produtora, principalmente na região de Brasília, o que dificulta o processamento e o escoamento do cereal.

Para impulsionar ainda mais a produção no cerrado, a Embrapa está apostando numa variedade transgênica de trigo, que deve apresentar vantagens em rendimento e qualidade, entrando no mercado na entressafra dos principais estados produtores, Paraná e Rio Grande do Sul. Esses avanços podem posicionar o cerrado como uma região-chave para o trigo brasileiro no futuro próximo.

Esses dois episódios revelam nuances importantes da agroindústria brasileira: enquanto o setor de carnes enfrenta pressões comerciais externas e desafios de imagem, há potencial de crescimento e inovação na produção agrícola regionalizada, especialmente com a adoção de novas tecnologias. A atenção do país aos ajustes dessas dinâmicas pode ser crucial para assegurar sua competitividade no mercado internacional.

Publicidade

O que sabemos?

  • A cota chinesa de importação de carne bovina do Brasil sem taxa extra de 55% está esgotada.
  • Barreiras da União Europeia reduzem volume e prejudicam a imagem da carne brasileira.
  • O cerrado registrou 9 toneladas por hectare de trigo em 2022, recorde mundial em produtividade por ciclo.
  • A Embrapa investe em trigo transgênico para ampliar produção no cerrado, com mercado focado na entressafra dos estados do Sul.

Fontes

Publicidade