Por que relatos de traumas frequentemente parecem confusos ou contraditórios?
Entenda como o trauma afeta a memória e comportamento das pessoas segundo especialistas
Segundo a professora Michele Patterson Ford, sobreviventes de traumas podem apresentar dificuldades para contar suas histórias de forma linear e clara, o que é uma reação esperada e compreensível diante da natureza do trauma.
Quando alguém vive um evento traumático, a forma como essa pessoa se lembra e relata a experiência muitas vezes não segue uma sequência clara ou lógica — na verdade, pode parecer confusa ou até contraditória. Essa dificuldade é explicada pela psicóloga Michele Patterson Ford, professora de psicologia no Dickinson College, que publicou um artigo no site The Conversation explicando a ciência por trás das memórias e comportamentos de quem passou por um trauma.
De acordo com Ford, é comum que sobreviventes tenham problemas para lembrar todos os detalhes ou até apresentar lembranças que mudam com o tempo. Essa memória fragmentada não significa que o relato seja falso, mas sim que o trauma altera o funcionamento normal do cérebro. Ela destaca que quem ouve essas histórias, como advogados, jornalistas ou profissionais de saúde, tende a esperar uma narrativa mais linear ou coerente, e isso pode gerar incompreensão. "As pessoas que não passaram por um trauma podem se surpreender ao perceber que a reação da vítima naquele momento não foi de luta ou fuga", diz a pesquisadora.
Ao contrário do que se imagina, a reação instintiva diante do perigo nem sempre é atacar o agressor ou fugir rapidamente. O comportamento pode variar amplamente, e esses diferentes tipos de resposta também são esperados do ponto de vista científico. Ford explica que eventos traumáticos atuais podem reativar memórias antigas, afetando ainda mais a capacidade da pessoa de lembrar ou agir como esperado.
Vale ressaltar, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) citada no artigo, que aproximadamente 70% das pessoas no mundo relatam já ter vivido algum evento traumático ao longo da vida, mostrando o quanto esse tema é relevante para a sociedade. Em seu trabalho acadêmico e clínico, Ford testemunhou a importância de uma abordagem que priorize a compreensão e a empatia, adotando uma postura informada sobre trauma para evitar julgamentos indevidos.
Resumidamente, entender a ciência por trás do trauma e suas consequências nas memórias e comportamentos é essencial para melhorar o suporte a quem sofre, seja em ambientes jurídicos, médicos ou sociais. O artigo publicado por Michele Patterson Ford no The Conversation convida leitores e profissionais a olharem para as histórias de trauma com mais atenção, paciência e respeito.
O que sabemos?
- Sobreviventes de traumas podem apresentar relatos confusos e contraditórios.
- A reação esperada diante do trauma nem sempre é lutar ou fugir.
- Cerca de 70% da população mundial já passou por algum evento traumático, segundo a OMS.
- Abordagens informadas aumentam empatia e compreensão por sobreviventes.
O que ainda não foi confirmado?
- A porcentagem de 70% de pessoas que sofreram trauma foi divulgada apenas pela revista Superinteressante.
Fontes
- Superinteressante fonte especializada



