Cancelamento: a pena de morte civil tem prazo para acabar?
O caso do estilista John Galliano reacende o debate sobre a possibilidade de reintegração após erros graves no tribunal da opinião pública
Em 2011, John Galliano, então estrela da Dior, foi alvo de cancelamento por declarações antissemitas e xenófobas. Uma década depois, retornou ao cenário fashion. Mas seria o cancelamento uma sentença perpétua ou pode ter um fim?
O cancelamento — fenômeno em que uma pessoa ou figura pública é excluída e boicotada após uma conduta considerada inaceitável — voltou a ser discutido com o caso do estilista britânico John Galliano. Segundo matéria da Folha de S.Paulo, o Met Gala chegou a anunciar Galliano como atração principal de sua próxima edição, mas recuou diante da reação negativa do público, reacendendo a pergunta: o cancelamento pode, ou deve, ter uma data de validade?
Galliano, no auge de sua carreira e estrelato como diretor criativo da Dior em 2011, foi gravado em um café em Paris proferindo ofensas antissemitas e xenófobas extremamente ofensivas. Sua fala incluía expressões como "Sua cadela judia. Pessoas como vocês estariam mortas. Suas mães, seus antepassados seriam todos mortos nas câmaras de gás." Foi uma cena que chocou o mundo da moda e da sociedade em geral.
Como consequência, o estilista foi demitido da Dior sumariamente e passou por um processo judicial na França, onde foi condenado. Em seguida, Galliano buscou reabilitação em uma clínica especializada, pediu desculpas públicas e, segundo a reportagem, passou anos afastado do cenário fashion, vivendo um período que pode ser chamado de “purgatório”.
O retorno do estilista se deu cerca de uma década depois, quando ele assumiu a Maison Margiela, retornando ao tapete vermelho e ao mercado de luxo. A experiência de Galliano levanta uma questão delicada para a sociedade contemporânea: é possível separar a obra do criador, especialmente quando ainda está vivo? A reportagem propõe um paralelo com a aceitação histórica de artistas como Wagner e Michael Jackson, cujas obras ainda são admiradas apesar de questões controversas em suas vidas, beneficiadas pelo distanciamento temporal.
No debate público atual, que muitas vezes se baseia em julgamentos nas redes sociais, a regra parece ser menos a reabilitação e mais a punição eterna. No entanto, segundo a Folha de S.Paulo, no Estado Democrático de Direito, a ideia é que quem comete um crime é julgado, cumpre a pena e tem o direito de reinserção social, sem ser condenado à exclusão definitiva ou à “pena de morte civil”. Essa perspectiva oferece um contraponto às práticas de cancelamento que se impõem na contemporaneidade.
Vale destacar que, até o momento, a informação sobre o cancelamento e o recuo do Met Gala em relação à presença de Galliano foi divulgada apenas pela Folha de S.Paulo, não havendo confirmação oficial ou pronunciamentos das partes envolvidas. Mesmo assim, o caso serve como mais um ponto de reflexão sobre nossos critérios de julgamento público e sobre o espaço dado para o arrependimento e a reintegração social.
O que sabemos?
- Em 2011, John Galliano foi gravado proferindo ofensas antissemitas e xenófobas e demitido da Dior.
- Galliano foi julgado e condenado pela Justiça francesa, internou-se em clínica de reabilitação e pediu desculpas públicas.
- Uma década depois, Galliano retornou ao cenário da moda à frente da Maison Margiela.
- O Met Gala recuou em transformar Galliano na estrela de sua próxima edição, segundo a Folha de S.Paulo, fonte única até o momento.
Fontes
- Folha de S.Paulo imprensa





