Como a 'impressão digital' da água ajuda a entender as mudanças nas chuvas da Amazônia
Pesquisa inédita utiliza isótopos para mapear a origem da umidade afetada por El Niño e aquecimento do Atlântico Norte
Estudo liderado pela Unesp monitora diariamente chuvas em Manaus, revelando que secas históricas em 2023 e 2024 alteraram não só o volume dos rios, mas também a composição das precipitações na Amazônia, com potencial para prever secas prolongadas.
As secas históricas que atingiram a Amazônia em 2023 e 2024 impactaram não apenas o volume dos rios, mas também a composição das chuvas na região, apontam pesquisadores em um estudo inovador. Segundo a Folha de S.Paulo, um monitoramento diário realizado em Manaus (AM) usou isótopos — versões mais leves ou pesadas dos átomos presentes na água — para mapear como a umidade que forma as chuvas tem sua origem influenciada pelo fenômeno climático El Niño e pelo aquecimento do Atlântico Norte.
O estudo, liderado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), é um dos primeiros a retomar o uso de técnicas isotópicas em estudos hidroclimáticos na Amazônia em mais de 30 anos. Segundo a reportagem, as variações nas proporções dos isótopos do hidrogênio e do oxigênio na água ajudam a traçar uma espécie de “impressão digital” que indica a origem e a dinâmica das chuvas.
Para entender essa técnica, é importante saber que as moléculas de água são formadas por átomos de hidrogênio e oxigênio. A maioria dos átomos de hidrogênio tem um núcleo com um próton, mas alguns têm um nêutron além do próton, tornando-os mais pesados. O mesmo ocorre com o oxigênio, que pode ter diferentes quantidades de nêutrons. Essas diferenças fazem com que as moléculas mais leves evaporem com facilidade, enquanto as mais pesadas condensam primeiro, permitindo assim identificar propriedades e trajetórias da umidade atmosférica.
O monitoramento em Manaus tem revelado que essas mudanças na composição da chuva são reflexo do impacto combinado do El Niño e do aquecimento da superfície do Atlântico Norte, elementos que alteram as correntes de ar e a distribuição da umidade sobre a floresta. Os pesquisadores sugerem que o uso da análise isotópica pode servir como um sistema de alerta antecipado para a chegada de períodos secos prolongados na região — algo crucial para preparar políticas públicas e ações de mitigação.
Até o momento, a informação foi divulgada exclusivamente pela Folha de S.Paulo, e espera-se a confirmação e complementação dos dados por outras fontes científicas. No entanto, o avanço representa um importante passo na compreensão das mudanças climáticas que afetam uma das maiores áreas florestais do planeta e seus sistemas hídricos, com repercussões para biodiversidade, clima e população local.
O que sabemos?
- Secas em 2023 e 2024 alteraram volume e composição da chuva na Amazônia
- Estudo monitorou chuvas diariamente em Manaus usando isótopos da água
- El Niño e aquecimento do Atlântico Norte influenciam origem da umidade
- Isótopos podem antecipar períodos prolongados de seca na região
Fontes
- Folha de S.Paulo imprensa




