Pesquisador brasileiro revela riscos das revistas científicas predatórias
Estudo pioneiro mapeia percepções de mais de 3 mil cientistas sobre publicações que enganam autores
Após publicar artigo em periódico predatório, engenheiro Fábio Lobato lidera ampla pesquisa nacional que mostra como acadêmicos brasileiros enfrentam o problema, destacando falta de conhecimento e métodos suspeitos dessas revistas.
O engenheiro de computação Fábio Lobato, autor de um artigo que integrou seu mestrado, teve contato direto com um tipo de problema que poucos pesquisadores conhecem: as revistas científicas predatórias. Em uma publicação feita no final de 2017, ele escolheu um periódico avaliado como B4 pelo sistema QUALIS, mas só percebeu o risco cerca de um ano depois, quando um colega estrangeiro alertou que a revista era predatória. "Conversando com colegas sobre o assunto, surgiu uma curiosidade científica de compreender as vulnerabilidades dos pesquisadores brasileiros", contou Lobato em entrevista por telefone.
Movido por essa experiência pessoal, Lobato empreendeu o que pode ser considerado o estudo mais amplo já realizado no Brasil sobre o tema. Foram mais de 3 mil cientistas entrevistados, com 1.065 deles tendo publicação efetiva, cujas respostas foram integradas em um artigo publicado em abril deste ano na revista Scientometrics, um periódico reconhecido pela sua seriedade. A pesquisa analisou 36 questões e confirmou que o pesquisador não foi o único a não reconhecer o caráter predatório da revista na qual publicou.
Um dos fatores mais apontados para a publicação em periódicos predatórios é a falta de conhecimento sobre o tema. "Para não cairmos em um golpe, precisamos reconhecê-lo", resumiu o professor, recém-chegado ao Instituto de Ciências Matemáticas e Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo, em São Carlos. Além da ignorância sobre a existência dessas publicações, os e-mails e convites insistentes e os valores abaixo da média para publicação são outros elementos que levaram os entrevistados a se depararem com os predadores.
Surpreendentemente, embora algumas dessas características fossem esperadas, outros aspectos revelaram nuances inesperadas, o que torna a pesquisa um importante ponto de partida para a discussão nacional sobre integridade e qualidade em publicações científicas. Lobato destaca que entender onde essas revistas atuam e quais são suas estratégias é fundamental para proteger a produção científica brasileira.
O problema envolve não só a falha de identificação por parte dos pesquisadores, muitas vezes jovens na carreira, mas também questões maiores relacionadas à pressão por publicações e à avaliação acadêmica no país. O estudo liderado por Lobato, que já integra a USP em São Carlos, abre caminho para iniciativas que possam informar melhor os cientistas e evitar que a ciência brasileira perca credibilidade, alvo frequente dessas publicações que cobram taxas baixas ou convidam pesquisadores com propostas agressivas de publicação.
O que sabemos?
- Fábio Lobato publicou artigo em revista predatória classificada como B4 pelo QUALIS em 2017.
- Após alerta de colega estrangeiro, Lobato iniciou pesquisa nacional sobre percepção de revistas predatórias.
- Pesquisa entrevistou mais de 3 mil cientistas, com 1.065 com publicações consideradas para análise.
- Pesquisa publicada em abril de 2024 no periódico legítimo Scientometrics.
O que ainda não foi confirmado?
- Informação divulgada apenas pela Revista Pesquisa FAPESP, aguardando outras fontes.
Fontes
- Revista Pesquisa FAPESP fonte oficial
