Cannabis medicinal no Brasil: da luta das mães ao mercado bilionário e a presença das grandes farmacêuticas
Década após pioneirismo, produção de fármacos cresce enquanto empresas internacionais dominam o setor
Mais de 50 fármacos à base de cannabis têm autorização da Anvisa. Pesquisadores alertam que corporações estrangeiras avançam sobre o mercado nacional, tradicionalmente marcado por ativismo e produção artesanal.
Há pouco mais de dez anos, um grupo de mães foi protagonista na abertura do caminho para a legalização da cannabis medicinal no Brasil, iniciativa que desde então vem revolucionando o campo da saúde e movimentando um mercado cada vez mais expressivo. Segundo a advogada e ativista Margarete Santos de Brito, a trajetória dessas mulheres está registrada no documentário Ilegal: a vida não espera, disponível no YouTube, que mostra o impacto social e político do movimento que conquistou espaço para a planta na medicina brasileira.
Atualmente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já autorizou a comercialização de 52 diferentes fármacos produzidos com base na cannabis, demonstrando o crescimento acelerado da produção nacional. Essa expansão acompanha uma tendência global: em 2023, o mercado legal de cannabis no mundo foi estimado em US$ 175 bilhões, segundo a BDSA, empresa especializada em inteligência de mercado sobre o setor.
Desde antes dessa consolidação, o professor Paulo José dos Reis Pereira, coordenador do Núcleo de Estudos sobre Drogas e Relações Internacionais (Nedri) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), dedica-se a estudar as mudanças regulatórias envolvendo a planta em diversos países. Ele destaca que, se no começo a maior força vinha das associações de pacientes e dos grupos ativistas ligados à luta pela regulamentação da cannabis, hoje o cenário é diferente.
"A grande questão hoje é que o mercado está sendo cada vez mais dominado pelas corporações farmacêuticas e empresas internacionais de cannabis", afirma Pereira. A pesquisa que coordena, financiada pela FAPESP, examina como companhias dos Estados Unidos e do Canadá atuam para influenciar regulações na América Latina, buscando ampliar sua presença nos mercados locais. Além disso, o estudo investiga os impactos dessa concentração corporativa sobre as comunidades pobres, rurais e marginalizadas, grupos tradicionalmente envolvidos no comércio clandestino da planta.
Esse avanço das grandes empresas levanta questões relevantes não apenas econômicas, mas sociais e políticas, pois altera a dinâmica que antes era marcada pelo ativismo e produção artesanal, transformando um cenário que poderia ser de inclusão social para um modelo mercadológico dominado por interesses globais.
Assim, a experiência brasileira, que começou com mães e ativistas buscando tratamentos e reconhecimento, hoje convive com uma indústria farmacêutica que estrutura o mercado bilionário da cannabis, abrindo um capítulo novo e complexo na relação entre saúde, direito e economia no país.
O que sabemos?
- Anvisa autorizou 52 fármacos à base de cannabis no Brasil.
- O mercado legal mundial da cannabis foi estimado em US$ 175 bilhões em 2023, segundo BDSA.
- A pesquisa do professor Paulo José dos Reis Pereira foca na influência das empresas internacionais nos mercados latino-americanos.
- Comunidades tradicionais participantes do mercado clandestino são impactadas pela entrada das grandes corporações.
O que ainda não foi confirmado?
- Informação divulgada apenas por Revista Pesquisa FAPESP; aguardando outras fontes.
Fontes
- Revista Pesquisa FAPESP fonte oficial
